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  • Contestação pode dar lugar a ganhos: entrada em vigor pode mudar clima do acordo UE–Mercosul
    Jan 12 2026
    Os protestos de agricultores franceses contra o Acordo Comercial entre a União Europeia e o Mercosul continuam nesta segunda‑feira (12), com bloqueios de rodovias, acessos a portos e depósitos estratégicos na França. Ainda assim, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, “a partir do momento em que a parte comercial começar a funcionar, os efeitos positivos podem trazer novos argumentos para os defensores do acordo e reduzir a probabilidade de um bloqueio judicial”, disse à RFI. A mobilização dos agricultores franceses ocorre após a aprovação do tratado por 21 dos 27 países do bloco europeu, na sexta‑feira (9), encerrando um processo de negociação que se arrastou por 25 anos. O pacto será assinado no sábado (17), no Paraguai, e depois deverá ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde pode enfrentar resistência de alguns parlamentares. Para Estrada, membro da Unidade Sul Global da London School of Economics, o principal peso do acordo é político e simbólico, num contexto internacional marcado por tensões e críticas ao multilateralismo. “Reforçar um acordo multilateral baseado em regras, em normas, e não na força, é uma mensagem política muito forte neste momento de grande incerteza no cenário internacional”, destacou. O pacto ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde já se anunciam disputas políticas e jurídicas, sobretudo nos países que votaram contra ou se abstiveram, como França, Áustria, Hungria, Irlanda, Polônia e Bélgica. Mesmo assim, Estrada avalia que existe hoje uma disposição clara para levar o processo adiante. “Há, por enquanto, uma vontade política que tem sido mantida. No fim do ano passado, havia o risco de a Itália bloquear o acordo, mas, após muita negociação, o governo italiano acabou apoiando a assinatura”, lembrou. A pressão dos agricultores e a possibilidade de judicialização do tratado tendem a marcar os próximos meses em Bruxelas. “Já existem parlamentares falando em recorrer à Justiça europeia para tentar bloquear o acordo”, observou Estrada, acrescentando, porém, que o cenário não é de retrocesso imediato. “Eu prevejo uma grande discussão no Parlamento Europeu, mas também vejo muita vontade política de fazer esse acordo funcionar.” Segundo o pesquisador, a entrada em vigor do tratado pode, inclusive, mudar o clima político em torno dele. Apesar de ser apresentado como o maior acordo comercial do mundo, reunindo um mercado de 722 milhões de consumidores, o tratado sofreu mudanças significativas ao longo das negociações. “Em 1999, os negociadores tinham combinado uma base de 200 mil toneladas anuais de carne bovina que poderiam ser exportadas sem tarifa pelo Mercosul. Esse número caiu para 99 mil toneladas no acordo final”, afirmou. Ainda assim, Estrada relativiza o impacto econômico dessas concessões. Questionado sobre a possibilidade de alguns países simplesmente se recusarem a aplicar o acordo mesmo após a ratificação, Estrada foi categórico. “Eu vejo isso como algo difícil, porque, se cada país começar a agir por conta própria, a União Europeia deixa de funcionar.” Ele explicou que o bloco dispõe de “mecanismos de governança muito rígidos, com regras claras”, o que torna improvável uma aplicação seletiva do tratado. Precedente com acordo assinado com o Canadá O cientista político comparou o momento atual ao acordo comercial entre União Europeia e Canadá, o CETA, também alvo de fortes críticas no passado. “Quando ele começou a vigorar, o intercâmbio comercial aumentou e hoje quase não se vê protestos contra esse acordo”, recordou. Para Estrada, “o mais difícil já passou” e o essencial agora é que o pacto produza resultados concretos, capazes de lhe conferir legitimidade política. No caso francês, a oposição do governo ao acordo não deve ser confundida com os problemas enfrentados pelo setor agrícola, segundo o especialista. “A dificuldade dos agricultores franceses está ligada principalmente à perda de competitividade da agricultura francesa, e não diretamente à posição do presidente Emmanuel Macron”, avaliou. Ele acredita que o governo francês terá de agir internamente para recuperar essa competitividade. Tratado de complementaridade econômica Estrada também ressaltou que o acordo não estabelece um livre‑comércio irrestrito no setor agrícola. “Ele define cotas muito claras. O livre‑comércio só existe até o limite dessas cotas, e há mecanismos de salvaguarda que impedem uma invasão de produtos do Mercosul na União Europeia e vice‑versa”, explicou. Para ele, trata‑se mais de um acordo de complementaridade econômica do que de abertura total de mercados. No plano internacional, o cientista político minimizou riscos de retaliação externa, como por parte dos Estados Unidos. “Havia temor de que a Argentina, alinhada a Washington, criasse dificuldades para o acordo, mas...
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  • Intervenção dos EUA na Venezuela pode ser ensaio para conflito geopolítico mundial, diz especialista
    Jan 9 2026
    O cientista político Andrés Malamud, principal pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor em instituições na Argentina, Brasil, Espanha, Itália, México e Portugal, analisa a operação de Trump na Venezuela, o isolamento europeu diante dos EUA e o risco de um choque geopolítico mais amplo. Adriana Moysés, da RFI Na avaliação de Malamud, a intervenção dos EUA em Caracas foi “uma decapitação do regime” e pode anteceder um conflito “mais ao centro da geopolítica”, envolvendo a Groenlândia, que é um território autônomo do Reino da Dinamarca. RFI – O governo Trump instalou um protetorado na Venezuela ao fazer a presidente interina Delcy Rodríguez aceitar que a receita do petróleo fique sob controle de Washington para compras de produtos americanos? Andrés Malamud – É verdade. Não houve invasão; houve uma decapitação do regime, mantendo o aparelho. Delcy Rodríguez passou de vice a presidente e prometeu cumprir acordos, ao contrário de Maduro. Resta ver o papel dos militares (como os ministros do Interior, Diosdado Cabello, e das Forças Armadas, Vladimir Padrino). Por enquanto, o governo da Venezuela prometeu fazer o que os Estados Unidos pediram e, portanto, podemos dizer que passou de ditadura para protetorado, sem deixar de ser ditadura. RFI – Ao focar no ganho econômico, Trump dá satisfação ao eleitorado MAGA (Make America Great Again), que rejeita operações externas? Andrés Malamud – Parcialmente. A satisfação que ele dá é não ficar na Venezuela e fazer uma operação de extração encoberta por um procedimento judicial. O governo americano alega que foi um juiz de Nova York que pediu a captura de Maduro, como narcotraficante, e então os militares forneceram logística para um funcionário do FBI entrar no lugar onde Maduro estava refugiado, ler os seus direitos e capturá-lo. O MAGA tem sempre uma preocupação moral muito forte, que Trump não tem quando diz 'petróleo, petróleo, petróleo'. A prova que o movimento MAGA não ficou satisfeio é que seu líder, o vice-presidente JD Vance, não participou do planejamento da operação nem da conferência de imprensa posterior. Esta operação foi arquitetada pelo Marco Rubio, secretário de Estado, que não é MAGA, não é isolacionista. Rubio é um intervencionista neoconservador clássico, como o ex-presidente Bush. Pete Hegseth, secretário de Guerra, embora tenha perfil America First e relutante a intervir, admite operações contra inimigos como o Irã ou regimes comunistas. Para Marco Rubio, o próximo objetivo é uma mudança de regime em Cuba. Para Trump, o objetivo seria petróleo e interesses materiais. Na Venezuela, a desculpa de intervenção foi a droga, mas no fundo, o único fio condutor de todas estas tribos do governo americano é geopolítica: mandar a China, a Rússia e Cuba para fora da Venezuela. RFI – Rubio disse que o regime de Cuba cairia sozinho. Pode-se descartar algum tipo de operação mais truculenta contra a ilha? Andrés Malamud - Os Estados Unidos, sobretudo Trump, utilizam ambiguidade como instrumento. A mudança de regime de Cuba é um objetivo histórico dos EUA e também há dinheiro a fazer na ilha, como os americanos faziam antes da revolução comunista, com cassinos, praias e resorts. O regime de Cuba está muito fragilizado e sem o petróleo da Venezuela dificilmente conseguirá resistir. RFI – Qual seria o próximo alvo? Andrés Malamud – Provavelmente, o alvo seguinte é a Groenlândia. A ilha é território do Reino da Dinamarca; não integra a União Europeia, mas a Dinamarca pertence à OTAN. O que muitos veem como conflito periférico na Venezuela pode ser ensaio para algo maior e central na geopolítica: os Estados Unidos atacarem um aliado da OTAN. RFI – Ao não impor uma relação de força contra Trump, os europeus contribuem para a implosão da OTAN? Andrés Malamud - Os europeus estão em negação: dependem dos EUA para logística e tecnologia de defesa. Sem os EUA, não há defesa europeia. Agora, o problema é que precisam defender-se dos EUA. A analista italiana Nathalie Tocci diz que a Europa não foi abandonada, mas traída: os EUA não deixaram a Europa sozinha, estão contra ela. A Europa está cercada pela Rússia, que invade, pelos Estados Unidos, que tarifam e podem invadir. A China, ironicamente, é a única grande potência que não tem interesse em destruir a integração europeia. RFI – Como reagem Rússia e China diante desse avanço de Trump? Andrés Malamud – Na América Latina, o hemisfério ocidental, como os norte-americanos chamam, a China é reativa – faz aquilo que os EUA permitem fazer. Ela não avança contra os interesses norte-americanos. Mas na sua região, a China é proativa – Taiwan será decidido pela China, no seu tempo. No caso da Rússia, há suspeita de que tenha colaborado com os EUA na Venezuela, porque os EUA colaboram ...
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  • CES 2026: IA e robótica devem dominar o maior salão de tecnologia do mundo, diz consultor brasileiro
    Jan 7 2026
    A CES (Consumer Electronics Show), maior feira de tecnologia do mundo, realizada anualmente em Las Vegas, nos Estados Unidos, abre o calendário mundial do segmento desde 1967. No ano passado, a CES atraiu mais de 140 mil pessoas de 158 países. O consultor em tecnologia Henrique Ono explicou à RFI sua iniciativa de organizar uma missão de curadoria para ajudar a divulgar e facilitar o acesso às tecnologias de ponta por executivos brasileiros. Em 2026, o evento acontece de 6 a 9 de janeiro. Henrique Ono destaca que a CES é uma feira pioneira no segmento de tecnologia.“As principais tecnologias foram lançadas na CES. O videocassete, o Discman, o videogame Atari — na época ainda uma startup — foram descobertos nessa feira. Em tempos mais recentes, a própria Microsoft lançou edições do sistema operacional Windows durante o evento. No ano passado, por exemplo, a Nvidia, cujo fundador e CEO é Jensen Huang, utilizou a feira para apresentar lançamentos da empresa ao público mundial”, explica. Embora o Brasil esteja entre os 20 países que mais enviam visitantes, a participação brasileira ainda é considerada pequena, representando cerca de 0,5% do total, aproximadamente 450 pessoas dos mais de 141 mil participantes esperados para a edição de 2026. “Eu acredito que atualmente a participação brasileira é pequena por desconhecimento dos C-levels e das diretorias, das pessoas que trabalham nas empresas. Basicamente, ela não é uma feira tão fomentada no Brasil”, lamenta Ono. Segundo ele, essa desconexão faz com que as empresas brasileiras discutam temas tecnológicos com atraso. “Os assuntos ligados à tecnologia abordados nas empresas do Brasil são temas que já foram tratados na CES uma, duas ou três edições antes. Por isso, acho muito importante diminuir esse tempo entre o lançamento de uma tecnologia aqui em Las Vegas e sua chegada às discussões nas empresas brasileiras”, aponta. Objetivo da missão brasileira na Consumer Electronics Show Henrique Ono, que participa pela sexta vez da CES, explica que sua principal intenção é levar o conhecimento das novas tecnologias aos empresários no Brasil. “Eu pessoalmente tenho a iniciativa de conectar e levar esse conteúdo cada vez mais, para mostrar a importância da feira para os brasileiros”. “A missão brasileira é, de fato, fazer uma curadoria. Porque é uma feira muito grande: são mais de 4.500 expositores em quatro dias. Então, a ideia é entender os objetivos individuais de cada pessoa e empresa para montar uma trilha personalizada e explorar as tecnologias mais relevantes”, destaca. Atualmente, nenhuma empresa do Brasil integra a delegação de expositores da feira. Mas o consultor sugere soluções para estimular uma futura participação brasileira na CES por meio de parcerias com outros países. Segundo ele, países como França, Israel, Japão e Coreia do Sul alugam espaços na CES para levar expositores de suas delegações e integrar parcerias. Inteligência Artificial e robótica dominam as tendências Antes mesmo do primeiro dia da CES, que começou oficialmente na terça-feira (6), Henrique Ono avaliou o evento de prévia da feira, o CES Unveiled, realizado no domingo (4), que elenca algumas empresas que tiveram destaque com soluções ou produtos inovadores. “Eu pude observar basicamente todo mundo falando de Inteligência Artificial, mas também muitas aplicações de IA, principalmente na área de saúde”, diz o consultor. “Muitas empresas de saúde, as health techs, estão criando soluções que vão desde softwares até dispositivos para combater a solidão, voltadas para pessoas da terceira idade, e para ajudar no monitoramento de saúde. Foi o spoiler que eu vi nesse evento antecipado”, destaca Ono. Aplicações práticas e impacto no mercado brasileiro Em seu trabalho como empreendedor, Henrique Ono sublinha a aplicação de tecnologias obtidas por ele em edições anteriores da CES em sua consultoria personalizada de viagens, a 'Viajante Pro', criada há dois anos. “Existem algumas tecnologias de IA que permitem prever estatísticas de precificação de voos ou hospedagens e acompanhar a aviação. Nós conseguimos indicar ao cliente qual é a chance de preços caírem ou de determinado voo atrasar, baseado em estatísticas”, explica. Por fim, Henrique Ono aposta em novidades em robótica na feira, devido ao crescimento expressivo da robótica humanoide observado na CES. O setor de robótica da Consumer Electronics Show cresceu quatro vezes em um ano. “Acredito que vai haver muita discussão sobre Physical AI, basicamente, a Inteligência Artificial associada a um dispositivo físico. Veremos muitas soluções voltadas para robótica. Aliás, este ano a CES criou uma área específica para expositores com soluções humanoides. No ano passado, havia cerca de 20 empresas; este ano, entre 80 e 100. Ou seja, quatro vezes ...
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  • 'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista
    Jan 6 2026
    Para Gabriel Petrus, professor da universidade Sciences Po, em Paris, e especialista em relações internacionais e negociações globais, a crise aberta pela prisão de Nicolás Maduro nos Estados Unidos poderia ter sido evitada se o Brasil e outros países tivessem sido mais incisivos na cobrança por eleições livres na Venezuela. “Se o Brasil tivesse pressionado Maduro a sair do poder ou a fazer uma transição democrática, talvez não estivéssemos diante dessa situação”, disse em entrevista à RFI. Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla. O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.” Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla. O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.” Fragmentação global e cálculo estratégico Na leitura de Petrus, a decisão do presidente Donald Trump deve ser entendida à luz de um mundo profundamente fragmentado, inclusive no interior de organizações tradicionais. Segundo ele, a erosão da coesão em instâncias como a União Europeia e a Otan cria um ambiente em que o uso da força ganha peso desproporcional nas relações internacionais. “Vivemos um cenário de fragmentação muito grande. Nesse contexto, o jogo da força, infelizmente, pesa mais do que deveria”, afirmou, acrescentando que a intervenção na Venezuela se insere numa estratégia de afirmação geopolítica mais ampla. A janela energética e o risco de concentração Na avaliação de Petrus, a dimensão energética é central para entender a operação americana. A Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ainda em grande parte não exploradas, sobretudo em razão da nacionalização do setor ao longo de mais de quatro décadas. Para o professor, uma eventual mudança de regime pode alterar profundamente as regras do jogo e reabrir o país à exploração por empresas estrangeiras. “A Venezuela participou da fundação da Opep e nacionalizou o petróleo de forma soberana. Hoje, uma possível mudança de regime pode significar também uma mudança das regras, com a reabertura da exploração para empresas multinacionais”, afirmou. Petrus pondera, no entanto, que não está claro se essa abertura resultaria em concorrência efetiva ou em uma concentração de poder econômico sob liderança americana. “A questão é saber se, de fato, outras empresas poderão concorrer — como a Petrobras, no Brasil, ou a Total, na França — ou se os Estados Unidos vão criar uma espécie de monopólio desses bens naturais”, disse. Segundo ele, a dúvida está diretamente ligada à nova doutrina de política externa anunciada recentemente por Trump. “A política externa americana passou a privilegiar explicitamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos, incluindo o domínio de recursos naturais considerados essenciais para a segurança nacional.” Para Petrus, esse reposicionamento explica por que a Venezuela se tornou um alvo central. “Estamos falando de um país com um potencial de exploração de petróleo talvez único hoje, justamente porque esse recurso ficou nacionalizado por décadas. A mudança política ali tem implicações que vão muito além da democracia ou da geopolítica regional.” No Congresso americano, parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora. Multilateralismo sob pressão e o 'dia seguinte' Petrus define o momento atual como um “momento de perigo” para a ordem internacional, não apenas pela operação na Venezuela, mas pelo acúmulo de crises que enfraquecem o multilateralismo. Ainda ...
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  • ‘Orixá’: franco-brasileiro cria fusão inovadora de sons e canta símbolos das favelas e do candomblé
    Jan 5 2026
    Criado oficialmente há dez anos pelo franco-brasileiro Adrien de Araújo, o projeto Drama On The Corner (D.O.T.C.) nasceu de uma paixão compartilhada com seu amigo de infância Gérald Portocallis: os dois queriam tocar funk, soul e R&B e fazer “as pessoas dançarem”. Depois de uma pausa de anos, o duo lançou recentemente seu segundo EP, “Orixá”, que contém cinco faixas originais dançantes e repletas de referências internacionais, revisitadas por uma produção moderna conectada às origens da família paterna de Adrien. Adrien de Araújo demonstra em “Orixá” como sua herança familiar, composta por raízes indígenas e músicos eruditos, impacta sua produção musical. “Essas influências fazem parte da minha história e da história da minha família. Minhas influências são, por exemplo, Banda Black Rio, Milton Nascimento, Jorge Ben e Emílio Santiago. O Emílio Santiago era um grande amigo do meu pai e meu padrinho musical. Eu queria botar na minha música essas influências do Brasil e misturar com outras influências europeias e africanas. Toda essa história começou com meu avô, meu pai e depois a minha formação musical. Foi um retorno às minhas raízes brasileiras”, conta. Filho do falecido pianista Walter Araújo, que fez carreira na França, Adrien também é neto de um maestro, José da Providência Araújo. Seu avô nasceu em uma aldeia Guajajara, no Maranhão, onde viveu até os 4 anos, antes de ser enviado para um internato, onde aprendeu português e estudou música — saxofone, clarinete, piano, violão — até se tornar maestro. Apesar do ritmo moderno e da pegada eletrônica, segundo Adrien, sua produção é altamente influenciada pela música erudita. “Para mim, a música clássica foi quase toda a minha vida. Estudei 15 anos no Conservatório de Paris com a pianista francesa Florence Delaage. Toquei muito Chopin e Rachmaninoff, essas influências mais românticas da música clássica. Você pode ouvir isso nas harmonias desse EP”, detalha. Na descrição oficial do duo, as inspirações originais vão da French Touch (Daft Punk, Cassius, Saint-Germain) à House de Detroit (Moodymann, Andrés, Theo Parrish). No entanto, Adrien de Araújo define que o som que produz é uma mistura de toda a carga cultural e familiar dele com a de Gérald Portocallis, que estudou bateria no sul da França: “O Gérald vem mais da House Music e do Jazz. Eu trago a música brasileira, a clássica, a francesa, o Funk e o Soul. O estilo do Drama On The Corner seria um Neo Soul, Jazz Fusion e Afrobeat, além de Samba Funk”, explica. Participações musicais no EP “Orixá” Adrien de Araújo afirma que, em seu processo de composição, já imaginava as vozes que iriam entrar nas melodias, como no caso da participação da húngara Lilla Molnár: “Fui a Budapeste gravar esta cantora húngara a faixa ‘Smooth Lips’. Também trabalhamos com Ladybird, uma das grandes vozes da House Music mundial. E com o cantor K.O.G, que tem dupla nacionalidade da Inglaterra e de Gana”. “Combinar várias culturas, várias inspirações, é música do jeito que tem que ser. Música não é só para pessoas de um país, é para ser ouvida no mundo inteiro”, afirma Adrien de Araújo. Em seu discurso, o músico deixa claro que a sonoridade do Drama On The Corner funciona como uma criação gastronômica: a fusão técnica rigorosa da música erudita em seu preparo, porém com o tempero rítmico brasileiro e africano, resultando em um prato feito para ser apreciado em qualquer lugar do mundo, sem fronteiras. Das favelas à Europa: música sem fronteiras Nos estúdios da RFI, Adrien detalha a importância de cantar na língua de sua família paterna, o português, e de homenagear a religiosidade afro-brasileira como forma de unificação cultural em tempos de intolerância. Ele brinca com seu sotaque francês ao cantar em português, mas enfatiza que, apesar de ser “50% francês e 50% brasileiro”, há dias em que o sangue brasileiro fala mais alto. “Eu queria cantar em português, como franco-brasileiro. Foi muito importante para mim cantar em português”, diz o músico. O artista morou por um ano no Rio de Janeiro, onde frequentava pagodes e bailes de favela. “Percebi essa mistura de cultura indígena, africana e europeia, particularmente no Rio de Janeiro. Tudo isso me influenciou muito. Os orixás fazem parte da cultura popular do Brasil, como Iemanjá, que reunifica essas três raízes, europeia, africana e indígena, como se dizia antigamente. Hoje em dia, em 2026, é muito importante unificar o mundo através da arte com uma mensagem de paz e alegria”, defende. Novos projetos em 2026 A agenda do Drama On The Corner está cheia de novidades para 2026, porém ainda com espaço para projetos, que incluem o desejo do duo em colaborar com o grupo Os Garotin e de participar de possíveis festivais no Brasil....
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  • Escritora brasileira Fernanda Bittar une culturas e transita entre a literatura adulta e a infantojuvenil
    Jan 2 2026
    A escritora brasileira Fernanda Bittar, residente em Paris há cerca de duas décadas, já contabiliza em sua carreira quatro livros voltados ao público infantojuvenil e dois livros de contos. Recentemente presente no 2º Salão do Livro Lusófono em Paris, a autora agora se prepara para sua primeira participação na Feira do Livro Infantil de Bolonha, em abril. Luiza Ramos, da RFI em Paris Fernanda Bittar transita entre os universos dos contos adultos e infantojuvenis desde que começou a escrever há mais de 15 anos. Como suas histórias se baseiam em situações do cotidiano, a vivência multilíngue influencia diretamente seus trabalhos. Um exemplo é o livro ilustrado trilíngue “O País do Coração”, que surgiu a partir de histórias de infância coletadas de pessoas de diferentes nacionalidades, inspirado na ideia central da obra: a universalidade da infância. “A primeira história desse livro, que é a história do Brasil, é uma história do meu pai José, que sempre me falou dessa história que marcou a vida dele. Todo mundo tem uma história que marcou a sua infância. Então, eu comecei a entrevistar pessoas. Eu entrevistei mais de 40 pessoas para conseguir chegar nessas 18 histórias do livro”, conta a escritora. Em “O País do Coração”, Fernanda busca transmitir sua visão de que crianças de todas as culturas compartilham os mesmos desejos e anseios: “Quando a gente é criança, a gente não tem ideia do que acontece com uma criança em outro país. Você não tem ideia do que acontece com uma criança no Japão. Através desse livro a gente consegue fazer essa ligação de que a infância é a mesma em todos os lugares, que nós somos os mesmos, nós queremos as mesmas coisas, nós pensamos do mesmo jeito. As crianças esperam as mesmas coisas e enfrentam desafios parecidos”. A autora fez questão de escrever cada história em português, inglês e francês, justamente para tornar mais universal a ideia que quis transmitir. Devido ao caráter multilíngue, o livro acabou sendo adotado por uma escola como parte do conteúdo pedagógico. Contos e próximos projetos Fernanda também discute sua transição para a escrita de contos adultos, iniciada com “Contos do Avesso” e continuada no mais recente “Contos do Imprevisto”, sem deixar de lado a paixão pelos livros infantojuvenis, como em seu último lançamento, “Ramizul e Violeta”, cujo objetivo é mostrar às crianças a magia da literatura. Ela revela que, ao escrever contos, “abriu uma portinha” sem precedentes “que nunca mais conseguiu fechar”, e atualmente projeta novos contos para publicação, ainda sem data definida. “Eu comecei escrevendo histórias infantis. Em 2012 apareceu um concurso e eu resolvi participar, só que tinha que escrever um conto inspirado na obra de Nelson Rodrigues, porque era o centenário do autor. Eu queria participar, mas nunca tinha escrito nada para adulto (...) Para minha felicidade e alegria, o primeiro conto que escrevi, ‘O casamento’, foi um dos premiados”, relata. O texto está presente no livro “Contos do Avesso”, publicado em 2020 pela Editora Paratexto. Livros em Língua Portuguesa na Europa Apesar de ser poliglota, tendo trabalhado como comissária de bordo internacional por cinco anos antes de estudar literatura, para Bittar a língua mestra de trabalho permanece sendo o português. “Eu não consigo escrever em outra língua que não seja o português. Tudo o que é feito depois são traduções”, explica. No 2° Salão do Livro Lusófono, evento que promove a literatura em Língua Portuguesa na Europa e aconteceu no fim de novembro na Maison du Portugal, dentro da Cidade Universitária de Paris, Fernanda Bittar pôde apresentar seus livros ao lado de outros escritores lusófonos de várias nacionalidades. “Sempre é muito interessante encontrar outros autores, encontrar o público, ver relatos de vários lugares, de várias partes. Vieram pessoas do Brasil, de Portugal e autores africanos. A ideia da União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP) é principalmente para reagrupar os autores que estão fora dos seus países de origem”, explica. De 13 a 16 de abril, na Itália, Fernanda Bittar vai expor seus livros na 63ª edição da Feira do Livro Infantil de Bolonha, um evento de referência para a área editorial e de conteúdos dedicados ao público infantil e juvenil.
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  • Designer brasileira desenvolve jóias sustentáveis reconhecidas por selo da prefeitura de Paris
    Dec 29 2025

    A arquiteta, urbanista e designer brasileira Ingrid de Rio Campo vive na França há 35 anos. Depois de atuar em grandes projetos urbanos e certificações ambientais, ela encontrou na pandemia um momento de reinvenção: passou a criar joias e peças artesanais com materiais sustentáveis. Suas criações acabam de receber o selo “Fabriqué à Paris”.

    Este selo atribuído pela prefeitura de Paris é destinado a produtos fabricados na capital francesa, com o objetivo de valorizar o savoir-faire local e promover práticas éticas e sustentáveis.

    “Eu comecei a desenhar joias em 2015 e, a partir de 2019-2020, passei a fabricar eu mesma”, conta Ingrid. Inicialmente, suas peças exploravam metais e pedras preciosas, mas o contexto pós-pandemia trouxe novas reflexões. “Eu mudei um pouco de estratégia e comecei a usar materiais mais duráveis, como madeira de lei e produtos têxteis. A minha ideia é propor joias grandes, generosas, para empoderar quem as usa – principalmente as mulheres.”

    Essa busca pelo empoderamento se conecta a outro eixo do trabalho da designer: a relação com a natureza. “É muito confortável usar madeira. Ela tem uma temperatura agradável. Minha ideia é nos conectar com a natureza e nos empoderar com a força dela”, explica.

    Entre culturas e escalas: do design à escrita

    Além das joias, Ingrid também cria peças de cerâmica, influenciada por suas origens familiares. “Tenho memórias da infância no interior de São Paulo, onde cresci e minha família japonesa se instalou. Eu tenho lembranças de algumas peças de cerâmica, de alguns chawan [tigela de forma aberta], na casa dos meus avós e dos meus tios.”

    Essa herança cultural e de conexão com a terra se traduz em outras técnicas tradicionais que Ingrid utiliza, entre elas o kurinoki, que consiste em entalhar a terra com uma faca ou um objeto cortante, e o kintsugi, que é a arte de restaurar alguns objetos, como peças quebradas que são coladas com folhas de ouro. “Meu trabalho é orgânico. Tento introduzir formas arredondadas porque estamos banhados em um universo de linhas retas e minha ideia é introduzir mais curvas.”

    Ingrid costuma dizer que “a geometria está em tudo e tudo é design”. Segundo ela, isso lhe permite navegar de uma grande escala até o objeto. “Essa liberdade é essencial”, afirma.

    Paralelamente à criação artística, ela atua como auditora de modelos de alta qualidade ambiental na França, certificando projetos arquitetônicos e urbanos. “Sou exigente com qualidade. Aqui, essa questão ambiental é bem regulamentada, com selos específicos”, observa. No Brasil, existe a certificação AQUA, ligada à USP, que nasceu da francesa HQE – acrônimo para alta qualidade ambiental em francês.

    Liberação da criatividade

    Com uma vida marcada pela diversidade de experiências, Ingrid também encontrou espaço para a escrita. “Uso há anos um método de liberação da criatividade da Julia Cameron. Entre 2024 e 2025, escrevi crônicas sobre a vida em Paris, sobre como é viver na cidade no dia a dia. Vou traduzir para o português e ilustrar os textos. Quero abrir a cortina do que acontece atrás dos monumentos e do turismo em Paris.”

    A trajetória revela uma profissional que transita entre culturas, linguagens e escalas, sempre guiada pelo conceito de design e pela busca de sustentabilidade. De auditorias ambientais a joias que conectam à natureza, Ingrid de Rio Campo constrói uma narrativa onde estética e ética caminham juntas.

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  • Filósofa e autora brasileira Márcia Schuback ganha prêmio internacional por engajamento contra o fascismo
    Dec 22 2025

    A filósofa e autora Márcia Sá Cavalcante Schuback, professora de filosofia na Universidade de Södertörn, na Suécia, ganhou o Prêmio Hermann Kesten 2025 por seu engajamento contra as novas formas de fascismo. A distinção, concedida pelo PEN Centro da Alemanha, já foi atribuída anteriormente ao prêmio Nobel de Literatura Günter Grass e à jornalista russa Anna Politkovskaya. A filósofa brasileira também está lançando na França seu livro sobre a filosofia na literatura de Clarice Lispector.

    Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris

    O PEN destacou que a obra de Márcia Schuback “contribui para a cultura democrática e para o debate intercultural”. O prêmio leva o nome de Hermann Kesten, em homenagem ao escritor judeu-alemão que se exilou quando Hitler ascendeu ao poder na Alemanha.

    “Receber esse prêmio foi uma honra muito grande, porque ele já foi concedido a autores como Günter Grass, Harold Pinter e ativistas importantes, como Anna Politkovskaya. E foi a primeira vez que a filosofia recebeu esse prêmio. Foi uma surpresa para mim. Eu não sabia que a filosofia podia receber esse tipo de atenção”, disse à RFI.

    Márcia Sá Cavalcante Schuback foi premiada por seus trabalhos sobre o fascismo da ambiguidade, a filosofia do exílio e a temporalidade do exílio. A cerimônia ocorreu em 13 de novembro, na cidade de Darmstadt, na Alemanha.

    Pensamento de Clarice Lispector

    Além do reconhecimento internacional, a filósofa publica este mês na França, pela editora Vrin, seu livro “Derrière la pensée, la philosophie de Clarice Lispector” ("Atrás do Pensamento: A filosofia de Clarice Lispector"), com tradução do filósofo francês Renaud Barbaras. A obra foi publicada no Brasil em 2022 pela Bazar do Tempo.

    “A Clarice é realmente uma autora que toca o mundo inteiro. Acho que é porque ela fala do ponto de vista dessa experiência tremenda que é ser tocado pela realidade, pelo mundo, pelo advento da palavra”, explica.

    Quando lemos Clarice, fazemos a experiência de ler frases tão impressionantes que é como se elas dissessem tudo: todo o passado, todo o futuro, todo o real se fazendo num instante absolutamente arrebatador. Ela nos toca diretamente.

    Márcia também destaca que a autora brasileira, que teve seus livros traduzidos para 32 idiomas e publicados em 40 países, abordou inúmeros temas e questões existenciais, inclusive na literatura infantil.

    “Ela é uma escritora da multivariedade, do arco-íris da existência, inclusive do seu lado agridoce, claro-escuro, tocando uma profundidade grande da vida”, sublinha.

    Márcia Cavalcante Schuback explica que o interesse de filósofos por Clarice Lispector vem do fato de que a autora trata de grandes temas filosóficos, “como a questão da liberdade, da necessidade, do determinismo, da vida, da morte, da existência e da origem, da linguagem, da relação entre pensamento e linguagem”.

    “Eu fiz uma leitura da Clarice como uma pensadora única. Não mais do ser, não mais da realidade, não mais da existência do mundo, não mais de uma subjetividade encontrando um mundo devastado ou por se construir. Mas uma grande pensadora do ‘sendo em ato’, ou seja, uma pensadora de um sentido de presença que não se confunde com as nossas categorias de ser ou existência. A Clarice é!”, diz.

    Para ela, Clarice Lispector tem muito a ensinar sobre o mundo. “Vivemos hoje em um mundo de fake news, manipulação e desinformação, excesso de uso e abuso das palavras, da linguagem, dos sentidos, onde tudo perde o sentido, como se o sentido perdesse o sentido de tão extremo que é”, analisa a filósofa.

    “Então, em vez de usar conceitos prontos ou se deixar manipular por essa circulação alucinada das palavras, que vira uma insensatez, como se tivéssemos que repreender o próprio sentido da linguagem, Clarice é uma escritora pensadora de ouvir a palavra. É como se ela escrevesse o tempo todo. Com Clarice, aprendemos o que é ter a palavra na ponta da língua, o que é o gaguejar, o não conseguir dizer. Tudo isso como uma experiência fundamental da linguagem”, conclui Márcia Schuback.

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