'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista Podcast Por  arte de portada

'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista

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Para Gabriel Petrus, professor da universidade Sciences Po, em Paris, e especialista em relações internacionais e negociações globais, a crise aberta pela prisão de Nicolás Maduro nos Estados Unidos poderia ter sido evitada se o Brasil e outros países tivessem sido mais incisivos na cobrança por eleições livres na Venezuela. “Se o Brasil tivesse pressionado Maduro a sair do poder ou a fazer uma transição democrática, talvez não estivéssemos diante dessa situação”, disse em entrevista à RFI. Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla. O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.” Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla. O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. “É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades.” Fragmentação global e cálculo estratégico Na leitura de Petrus, a decisão do presidente Donald Trump deve ser entendida à luz de um mundo profundamente fragmentado, inclusive no interior de organizações tradicionais. Segundo ele, a erosão da coesão em instâncias como a União Europeia e a Otan cria um ambiente em que o uso da força ganha peso desproporcional nas relações internacionais. “Vivemos um cenário de fragmentação muito grande. Nesse contexto, o jogo da força, infelizmente, pesa mais do que deveria”, afirmou, acrescentando que a intervenção na Venezuela se insere numa estratégia de afirmação geopolítica mais ampla. A janela energética e o risco de concentração Na avaliação de Petrus, a dimensão energética é central para entender a operação americana. A Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ainda em grande parte não exploradas, sobretudo em razão da nacionalização do setor ao longo de mais de quatro décadas. Para o professor, uma eventual mudança de regime pode alterar profundamente as regras do jogo e reabrir o país à exploração por empresas estrangeiras. “A Venezuela participou da fundação da Opep e nacionalizou o petróleo de forma soberana. Hoje, uma possível mudança de regime pode significar também uma mudança das regras, com a reabertura da exploração para empresas multinacionais”, afirmou. Petrus pondera, no entanto, que não está claro se essa abertura resultaria em concorrência efetiva ou em uma concentração de poder econômico sob liderança americana. “A questão é saber se, de fato, outras empresas poderão concorrer — como a Petrobras, no Brasil, ou a Total, na França — ou se os Estados Unidos vão criar uma espécie de monopólio desses bens naturais”, disse. Segundo ele, a dúvida está diretamente ligada à nova doutrina de política externa anunciada recentemente por Trump. “A política externa americana passou a privilegiar explicitamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos, incluindo o domínio de recursos naturais considerados essenciais para a segurança nacional.” Para Petrus, esse reposicionamento explica por que a Venezuela se tornou um alvo central. “Estamos falando de um país com um potencial de exploração de petróleo talvez único hoje, justamente porque esse recurso ficou nacionalizado por décadas. A mudança política ali tem implicações que vão muito além da democracia ou da geopolítica regional.” No Congresso americano, parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora. Multilateralismo sob pressão e o 'dia seguinte' Petrus define o momento atual como um “momento de perigo” para a ordem internacional, não apenas pela operação na Venezuela, mas pelo acúmulo de crises que enfraquecem o multilateralismo. Ainda ...
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