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  • Groenlândia rejeita proposta de Trump e diz ‘não estar à venda’ antes de reunião tensa em Washington
    Jan 14 2026

    O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, rejeitou publicamente qualquer possibilidade de vender o território aos Estados Unidos às vésperas de uma reunião de alto nível em Washington. Em entrevista coletiva ao lado da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, em Copenhague, Nielsen afirmou que “falar em comprar outro povo é desrespeitoso” e reforçou que os groenlandeses “escolhem a Dinamarca”.

    Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

    A declaração ocorre antes do encontro marcado para quarta-feira (14) na Casa Branca entre a chanceler da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.

    A reunião foi solicitada por Rasmussen após o endurecimento do discurso do presidente Donald Trump sobre a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle da ilha.

    O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que Groenlândia e Dinamarca atuarão de forma conjunta: “Entramos juntos na sala, saímos juntos e falamos com os americanos juntos”. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também destacou a unidade entre os dois governos e disse que enfrentar “pressões inaceitáveis de aliados históricos” não tem sido fácil, acrescentando que “o mais difícil pode estar por vir”.

    A presença do vice-presidente JD Vance no encontro elevou o nível político da reunião, que será realizada na Casa Branca. Segundo Rasmussen, Vance solicitou participar e vai presidir o encontro. Após reunião entre Nielsen e Frederiksen, os dois líderes reiteraram que manterão posição unificada diante dos Estados Unidos.

    Trump insiste em "garantir a Groenlândia"

    Donald Trump tem repetido publicamente o desejo de adquirir a Groenlândia, território semi-autônomo sob soberania dinamarquesa, classificando a iniciativa como um “imperativo estratégico”. No domingo (11), afirmou que “se os Estados Unidos não tomarem a Groenlândia, Rússia ou China tomarão”, e disse que pretende garantir o controle da ilha “de um jeito ou de outro”. Na semana passada, declarou que prefere “o jeito fácil”, comprando o território, mas não descartou o “jeito difícil”, incluindo pressão extrema e até ação militar.

    O presidente americano também afirmou que garantir a Groenlândia é essencial para a segurança dos Estados Unidos, citando a presença russa e chinesa no Ártico. Governos nórdicos, no entanto, rejeitam a alegação de que navios chineses e russos estejam operando em águas próximas à Groenlândia de forma ameaçadora.

    A crise também chegou ao Reino Unido. Em Londres, a ministra de Negócios e Energia da Groenlândia, Naaja Nathanielsen, pediu ao governo britânico que “ouse ter princípios” e ajude a ilha a resistir às pressões de Trump. Em um briefing com parlamentares britânicos, Nathanielsen defendeu que os conflitos sejam resolvidos por meio do diálogo e do respeito ao direito internacional, e não pela força.

    Ela agradeceu publicamente o apoio do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e pediu que o Reino Unido insista na defesa do direito internacional e na relevância da Otan. Starmer já declarou que o futuro da Groenlândia deve ser decidido apenas pela Dinamarca e pelos groenlandeses.

    Leia tambémIntervenção dos EUA na Venezuela pode ser ensaio para conflito geopolítico mundial, diz especialista

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  • Impedida desde 2ª Guerra, Alemanha pode começar a desenvolver armas nucleares sob pretexto de 'dissuasão'
    Jan 13 2026
    A Alemanha entrou em 2026 tendo de enfrentar um debate incômodo: a necessidade ou não de o país desenvolver suas próprias armas nucleares. Embora o tema seja controverso, há um consenso na imprensa, entre especialistas e políticos: Berlim não pode mais confiar 100% no chamado “guarda-chuva nuclear americano”, que garantiu a segurança do país por décadas. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf A Alemanha é proibida de desenvolver armas nucleares desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas a restrição se consolida com o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), assinado em 1968 e em vigor desde 1970, do qual a então Alemanha Ocidental se tornou signatária em 1975. O que disparou o atual debate sobre armas nucleares na Alemanha foi uma mistura de fatores que começou com a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas que ganhou força neste começo do ano com as ameaças americanas de anexação da Groenlândia, que pertence à Dinamarca. A lógica é que um conflito pela Groenlândia poderia levar ao fim da Otan, o que, por sua vez, poderia levar ao fim do guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos para a Alemanha, que existe desde a Guerra Fria. Os americanos atualmente mantêm bombas nucleares armazenadas na Base Aérea de Büchel, no Oeste da Alemanha. Em outubro do ano passado, o chanceler Friedrich Merz disse não estar pensando na questão nuclear naquele momento, mas o cenário mudou. Na semana passada, o Brigadeiro-General Frank Pieper, que pertence à Academia de Liderança do exército alemão, publicou nas redes sociais um texto dizendo com todas as letras: “A Alemanha não pode mais confiar sua existência aos Estados Unidos e ao seu guarda-chuva nuclear. A Alemanha precisa de armas nucleares táticas para se opor à ameaça russa”. Leia tambémEUA vão anexar Groenlândia ‘de um jeito ou de outro’, ameaça Trump Nesta semana, um membro do próprio partido de Merz quebrou o silêncio sobre o tema. O especialista em política externa da CDU, o coronel aposentado Roderich Kiesewetter, sugeriu que a Alemanha contribua financeiramente para um sistema europeu de proteção nuclear, porém sem assumir a liderança. A tese de que a Alemanha deva fazer um acordo para ter proteção nuclear da França é descartada por quase todos os especialistas, incluindo membros do governo. Primeiro, porque a oferta feita pela França até aqui foi tímida e com quase nenhuma garantia. Segundo, que a possibilidade da chegada do partido de Marine Le Pen ao poder na França colocaria a segurança da Alemanha novamente em risco. Alemanha poderia desenvolver ogiva em até 5 anos Especialistas como Rainer Moormann, que trabalhou durante anos no Centro de Pesquisa Nuclear de Jülich, acreditam que a Alemanha possui o conhecimento técnico para construir sua própria ogiva nuclear em um período de três a cinco anos, graças à usina de enriquecimento nuclear de Gronau. Mas não seria algo tão simples: vale lembrar que o país é signatário de dois tratados que, em tese, o impedem de desenvolver armas nucleares. Já o especialista Eckhard Lübkemeier defendeu, em entrevista ao Frankfurter Allgemeine, que em um cenário profundamente alterado, ou seja, sem a proteção americana e com uma Rússia agressiva no leste, o direito internacional dos tratados permite a revogação de antigos compromissos. Lübkemeier, que é ex-vice-chefe do departamento europeu da Chancelaria Federal, é um dos que defendem a ideia da “bomba alemã”, caso "nenhum de nossos parceiros esteja preparado para assumir um compromisso”. Vale registrar ainda que a opinião pública alemã, que ainda é majoritariamente contra a ideia, mas que vem mudando. Em 2020, apenas 5% se diziam a favor de uma bomba nuclear alemã. Em 2025, este número se multiplicou por seis, atingindo 30%. O poder da dissuasão Uma das vozes mais eloquentes na defesa de uma nova dissuasão nuclear para a Alemanha é a de Claudia Major, vice-presidente do German Marshall Fund e assessora do governo alemão. Ela disse ao Die Zeit que a guerra na Ucrânia está demonstrando que o poder da dissuasão nuclear ainda funciona. A Rússia até agora evitou qualquer conflito militar com os países da Otan porque sabe dessa ameaça. Ao mesmo tempo, os países ocidentais estão calibrando seu apoio à Ucrânia com muita cautela, justamente por medo das ameaças nucleares russas. Mas, segundo Major, agora há uma novidade. Tradicionalmente, a dissuasão era entendida como a defesa do status quo: a Otan e a Rússia protegem suas fronteiras e a ordem vigente. Mas a Rússia agora está usando a proteção de suas armas nucleares para mudar a ordem vigente: redesenhou fronteiras e anexou quatro regiões ucranianas
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  • Cinema brasileiro faz história no Globo de Ouro com vitória dupla de 'O Agente Secreto' e Wagner Moura
    Jan 12 2026
    "O Agente Secreto" e Wagner Moura confirmam a excelente fase do cinema nacional e entram para a história do Globo de Ouro. Pela primeira vez em 83 anos de premiação, um ator brasileiro vence o prêmio de Melhor Ator em Drama e o Brasil conquista a estatueta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa pela segunda vez, 27 anos após 'Central do Brasil', de Walter Salles. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles A premiação aconteceu neste domingo (11), no hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills, na Califórnia. Além das vitórias históricas, "O Agente Secreto" ainda concorria ao prêmio de Melhor Filme de Drama. O diretor Kleber Mendonça Filho subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, acompanhado da equipe presente na cidade, entre eles os atores Wagner Moura, Alice Carvalho, Gabriel Leone e a produtora Émilie Lesclaux. Pela primeira vez, o Brasil leva dois Globos de Ouro na mesma cerimônia. Visivelmente emocionado, Kleber começou com um 'oi' em português para quem assistia no Brasil e agradeceu à Neon, distribuidora do filme nos Estados Unidos, responsável por uma campanha robusta em Hollywood; e ao Festival de Cannes, onde ele foi premiado como Melhor Diretor e Wagner Moura como Melhor Ator. O diretor também agradeceu à Vitrine Filmes, distribuidora nacional, por transformar "O Agente Secreto" em 'um blockbuster incomum no Brasil'. Kleber Mendonça dedicou o prêmio aos jovens cineastas e fez um discurso marcante. "Este é um momento muito importante para se fazer filmes, aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Jovens americanos, façam filmes." Quem anunciou o prêmio foi a atriz Minnie Driver ("Gênio Indomável"), que fez questão de dizer 'parabéns' em português, ao lado do ator Orlando Bloom ("Piratas do Caribe"). Título inédito Wagner Moura venceu como Melhor Ator em Drama, levando ao Brasil um título inédito. O ator baiano já aparecia como favorito absoluto. Na plataforma de apostas Kalshi, ele liderava com 66% de chances de vitória, bem à frente do segundo colocado, Michael B. Jordan, por "Pecadores". Ao subir ao palco, Wagner falou em português. "Viva o Brasil, viva a cultura brasileira." Em seguida, elogiou o diretor em inglês. "Kleber, você é um gênio e um irmão. 'O Agente Secreto' é um filme sobre memória — ou a falta dela — e sobre trauma geracional. Se o trauma pode ser passado de geração para geração, os valores também podem. Esse prêmio é para aqueles que resistem com seus valores em tempos difíceis", declarou. Wagner dedicou a estatueta à esposa, Sandra Delgado, e aos três filhos. Há dez anos, ele já havia sido indicado ao Globo de Ouro por "Narcos", na categoria de ator em série. Naquela ocasião, o prêmio ficou com Jon Hamm, de "Mad Men". Globo de Ouro 2025 No Globo de Ouro de 2025, "Ainda Estou Aqui" foi indicado, mas quem venceu como Melhor Filme de Língua Não Inglesa foi "Emilia Perez", representando a França, então considerado o grande favorito da temporada. Pouco depois, um escândalo envolvendo a atriz Carla Sophia Gascon — por mensagens de ódio divulgadas nas redes sociais — mudou completamente o cenário. "Ainda Estou Aqui" acabou ganhando força, assumiu a liderança e venceu o Oscar de melhor filme internacional. Fernanda Torres, que venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz no ano passado, ganhou uma visibilidade decisiva em Hollywood, o que contribuiu para a indicação ao prêmio. Mais Esperança Com essa vitória dupla, "O Agente Secreto" e Wagner Moura ganham ainda mais projeção numa temporada que já é histórica para o cinema brasileiro. Nunca um filme nacional chegou tão bem cotado logo na largada, nem mesmo "Ainda Estou Aqui". O sucesso do filme já trouxe um clima de vitória de Copa do Mundo às redes sociais, onde os brasileiros comemoram como nenhum outro povo no planeta. O presidente Lula também entrou no clima e publicou uma mensagem parabenizando o filme e o ator baiano. Na semana passada, o longa venceu como Filme Internacional nos Critics' Choice Awards. Embora os votantes do Oscar não sejam os mesmos do Globo de Ouro ou do Critics' Choice, esses prêmios amplificam muito a visibilidade da produção. Em dez dias, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anuncia os indicados ao Oscar. A disputa é acirrada, com títulos como "Valor Sentimental" (Noruega), "Foi Apenas um Acidente" (França) e "A Única Saída" (Coreia do Sul), todos filmes premiados e concorrentes de peso, que também estavam indicados ao Globo de Ouro. Outras premiações "Uma Batalha Após a Outra" foi o mais premiado da noite: venceu como Melhor Filme de Comédia ou Musical, além de direção e roteiro para Paul Thomas Anderson e atriz coadjuvante para Teyana Taylor. "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" levou Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz, para Jessie Buckley. Entre as séries, os destaques foram "The Pitt" (HBO Max), "The Studio" (Apple TV) e "Adolescência" (Netflix).
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  • Confrontos entre governo sírio e forças curdas deslocam milhares em Aleppo
    Jan 9 2026

    Nos últimos dias, Aleppo, no norte da Síria, voltou ao centro da instabilidade no país. Confrontos armados entre forças do novo governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS) — coalizão militar liderada por curdos — já duram três dias e provocaram o deslocamento de milhares de civis.

    Giovanna Vial, correspondente da RFI no Líbano

    Nos últimos dias, Aleppo, no norte da Síria, voltou ao centro da instabilidade no país. Confrontos armados entre forças do novo governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS) — coalizão militar liderada por curdos — já duram três dias e provocaram o deslocamento de milhares de civis.

    Desde terça-feira, 6 de janeiro, os combates se concentraram em Ashrafieh e Sheikh Maqsoud, bairros em Aleppo que são historicamente habitados por uma população majoritariamente curda.

    No terceiro dia dos enfrentamentos, as autoridades sírias anunciaram toque de recolher em seis bairros, incluindo esses dois de maioria curda. Até o momento, pelo menos 22 pessoas foram mortas e outras 173 ficaram feridas. Cerca de 100 mil civis deixaram suas casas à medida que os confrontos se intensificaram.

    Novas frentes de conflito

    As Forças Democráticas Sírias controlam grande parte do norte e nordeste da Síria, região conhecida como Curdistão sírio ou Administração Autônoma do Norte e do Leste da Síria. A área possui fronteiras próprias, além de forças de segurança e autoridades civis independentes do restante do país. Durante a guerra civil síria, as FDS receberam apoio norte-americano no combate ao Estado Islâmico e consolidaram controle militar e administrativo sobre o território.

    Com a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 e a consolidação de um novo governo em Damasco, esta região curda passou a ser vista pelo governo sírio como um território que deveria ser reincorporado à autoridade central do Estado sírio.

    Em março de 2025, foi anunciado um acordo de integração entre o governo sírio e as SDF, que previa a incorporação das forças curdas às instituições civis e militares do Estado sírio. Na prática, no entanto, a implementação desse acordo tem sido marcada por desconfiança e impasses, já que os curdos, que combateram o Estado Islâmico (EI) durante a guerra civil, agora se veem diante de um governo formado por ex-combatentes de grupos jihadistas, incluindo o próprio EI e a Al Qaeda.

    Desde a queda do regime de Assad, novas frentes de conflito surgiram na Síria, desta vez envolvendo minorias sectárias no país. Desde então, minorias como alauítas, drusos e curdos têm sido alvo de perseguição e ataques.

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  • Resistência das instituições brasileiras ao golpismo escancarou que parte da sociedade não liga para democracia
    Jan 8 2026
    Se os atos contra a invasão 8 de janeiro de 2023 mostraram esforço de órgãos como polícia federal, ministério público e poder judiciário do Brasil para identificar e punir responsáveis pela trama golpista, por sua vez também evidenciou que o Brasil continua dividido, inclusive quando o assunto é a defesa da democracia. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Há três anos uma massa raivosa invadiu e depredou a sede dos três poderes em Brasília. Com base em investigações da polícia federal, depoimentos e provas, a justiça considerou que o ato estava ligado a uma trama que pretendia matar rivais e tomar o poder, num golpe fracassado que levou à condenação e à prisão autoridades do ex-governo, como Jair Bolsonaro e, pela primeira vez na história, militares de alta patente, como os generais Braga Netto e Augusto Heleno. Mas ainda que o resultado tenha mostrado a resistência e o funcionamento de instituições que estiveram à frente das apurações, analistas ouvidos pela RFI apontam uma perigosa constatação advinda daquele 8 de janeiro de 2023: a de que parcela significativa da população e da classe política não só não viu gravidade na pretendida ruptura, como apoia o retorno ao poder de nomes que de alguma forma minimizam ou mesmo apoiaram o golpismo. Leia tambémSTF determina prisão domiciliar de dez condenados pela tentativa de golpe de Estado “É triste ter que admitir que a política brasileira se encontra tão degradada. Que mesmo uma fracassada, mas muito explícita tentativa de golpe de Estado não foi suficiente para haver um consenso de que isso é inadmissível”, afirmou o cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília. Para ele, embora o Brasil muitas vezes seja citado atualmente como exemplo de combate ao golpismo da extrema direita e mesmo obtido avanços importantes como a condenação e a prisão de acusados, os efeitos do 8 de janeiro não foram tão positivos para a política brasileira. Um "cordão sanitário" contra o golpismo no Brasil? “Os atos deveriam ter promovido um grande cordão sanitário contra aqueles que atentam contra a democracia. Deveriam ter contribuído para afastar definitivamente os setores conservadores tradicionais dessa nova extrema direita que se organizou em torno da figura de Jair Bolsonaro. O desrespeito a regras básicas da convivência democrática deveria resultar no ostracismo. Não foi isso que aconteceu. A gente acabou vendo uma rápida reconstituição desse campo”, constata Miguel. O analista político Bhreno Vieira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco chama de "efeitos colaterais" os resultados negativos perceptíveis na sociedade diante dos inquéritos e do julgamento dos acusados. “Essa atuação forte capitaneada pelo poder judiciário produziu efeitos colaterais, como o aumento do caldo da polarização, principalmente entre a elite política. Então a gente vê que o Congresso tenta reduzir penas, questiona os processos, a gente vê que existe um tensionamento institucional entre os poderes.” Mais grave ainda, na visão de Vieira, é constatar que o atentado à democracia divide opiniões entre os brasileiros: “A população, o eleitorado, grupos políticos, todo um comportamento coletivo que apoia a fraude, a deslegitimação das instituições. Setores que encaram a questão do golpe, da ruptura por meio da força, como um caminho a ser legitimado.” Evento politizado Enquanto a direita se engalfinha para ver quem fica com o eleitorado bolsonarista, o governo Lula organizou cerimônia no Palácio do Planalto nessa quinta-feira, tendo por objetivo “reforçar os valores da democracia, que sofreu abalo nessa data, em 2023”, diz o comunicado oficial do Executivo. “Vejo esses atos com uma certa ambiguidade. Por um lado, é bom que a sociedade se manifeste com memória e em repúdio aos que atentaram contra a democracia. Mas por outro lado, existe uma forte tendência de politização, com um caráter fortemente político, até no sentido eleitoral, partidário mesmo, por parte de Lula, do governo, porque nós estamos em ano de eleição”, avalia o cientista político Leonardo Queiroz Leite, doutor em administração pública e governo pela FGV/SP. Leia tambémSTF condena Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão e rompe com tradição de impunidade “O outro polo está muito fragilizado, com Bolsonaro preso, doente, a direita fragmentada, sem candidato claro. E Lula, como um ser político, certamente vai tentar instrumentalizar esses atos de modo a se colocar como defensor da democracia. Para o país seria bom que fosse algo mais neutro, algo mais institucional, republicano”, disse Leite. No Supremo Tribunal Federal também haverá eventos para relembrar os ataques. Já na Câmara e no ...
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  • Após anúncio de apoio a agricultores, ministros da UE se reúnem para destravar acordo com Mercosul
    Jan 7 2026

    A Comissão Europeia anunciou o adiantamento de incentivos financeiros para agricultores, em mais uma tentativa de reduzir resistências internas e viabilizar a assinatura do acordo de livre comércio com o Mercosul. A proposta prevê a liberação antecipada de até € 45 bilhões para o setor. Os 27 ministros da Agricultura do bloco participam de uma reunião extraordinária em Bruxelas, na tarde desta quarta-feira (7), para superar últimos entraves.

    Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas

    A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enviou uma carta aos Estados-membros e ao Parlamento Europeu propondo ajustes na Política Agrícola Comum (PAC) do bloco para o próximo ciclo orçamentário de 2028-2034. A medida prevê o acesso antecipado a recursos e funciona como uma injeção financeira para aumentar a competitividade dos agricultores europeus.

    Nas palavras de Von der Leyen, a iniciativa tem como objetivo tornar o setor agrícola mais preparado para enfrentar pressões globais, incluindo os impactos de acordos comerciais. O pacote se soma às salvaguardas já aprovadas pelo Parlamento Europeu, que criaram mecanismos de proteção ao mercado agrícola europeu no contexto do acordo com o Mercosul.

    A assinatura da parceria, prevista para o mês passado, foi adiada após a Itália, liderada pela primeira-ministra Giorgia Meloni, pedir mais tempo para negociar apoio interno, especialmente entre agricultores. O voto italiano é considerado decisivo no Conselho Europeu, já que França, Polônia e Hungria permanecem contrárias ao acordo.

    Os agricultores franceses continuam sendo o principal foco de resistência. Eles argumentam que o tratado abriria espaço para concorrência desleal com produtos sul-americanos, produzidos sob regras ambientais e sanitárias diferentes das exigidas na União Europeia.

    Reação dos países aos incentivos

    O novo pacote financeiro foi recebido de forma positiva e, ao que tudo indica, garantiu o apoio decisivo da Itália ao acordo com o Mercosul. Giorgia Meloni divulgou um comunicado celebrando a iniciativa da Comissão Europeia, e novas sinalizações devem surgir nos próximos dias. Alemanha e Espanha seguem favoráveis ao tratado e veem os incentivos como um instrumento para destravar o processo.

    Já a França mantém posição contrária. Agricultores locais afirmam que a proposta não altera o cenário e prometem ampliar as manifestações caso o acordo avance. Nesta semana, o governo francês anunciou a suspensão da importação de produtos agrícolas da América do Sul que contenham resíduos de pesticidas proibidos na União Europeia. A Comissão Europeia tem dez dias para decidir se veta ou se estende a medida a todo o bloco.

    Próximos passos para o avanço do acordo UE-Mercosul

    Na tarde desta quarta-feira (7), os 27 ministros da Agricultura da União Europeia participam de uma reunião extraordinária em Bruxelas. Na pauta estão a nova proposta orçamentária da Comissão e a decisão unilateral adotada pela França.

    Caso a Itália confirme oficialmente o apoio ao acordo, uma votação no Conselho Europeu pode ocorrer já nesta sexta-feira. O voto italiano deve garantir a maioria qualificada necessária, reunindo países que representem ao menos 65% da população do bloco.

    Se aprovado no Conselho, o acordo avança para a assinatura formal entre União Europeia e Mercosul, que pode acontecer no dia 12 deste mês no Paraguai, país que se encontra na presidência rotativa do bloco sul-americano. A etapa final será a análise e votação no Parlamento Europeu, prevista para acontecer ao longo deste ano.

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  • Captura de Maduro divide parlamentares e abre nova crise entre Congresso dos EUA e governo Trump
    Jan 6 2026
    A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas deve dominar a agenda política em Washington nesta semana e abriu uma crise entre o Congresso e o governo de Donald Trump. Parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Na tarde desta segunda-feira (5), líderes do Congresso e membros-chave das comissões de Inteligência, Forças Armadas, Relações Exteriores e Relações Internacionais participaram de um briefing fechado com autoridades do alto escalão do governo. Entre os presentes estavam o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, a procuradora-geral, Pam Bondi, o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine. Apesar da reunião, o clima foi de frustração entre parlamentares, sobretudo entre democratas, que afirmam não ter recebido respostas claras sobre a base legal da ação militar nem sobre os planos futuros da Casa Branca. Democratas cobram base legal e alertam para custos e riscos A senadora democrata Jeanne Shaheen, principal nome do Partido Democrata na Comissão de Relações Exteriores do Senado, disse à CNN que saiu do briefing sem a explicação jurídica que esperava. “Nós não recebemos essa justificativa”, afirmou, ao ser questionada sobre por que o Congresso não foi informado previamente da operação militar na Venezuela. Shaheen também disse não ter obtido respostas sobre quanto tempo os Estados Unidos pretendem manter controle operacional sobre a Venezuela nem sobre quanto essa ação vai custar ao contribuinte americano. “Estamos gastando dinheiro no Caribe agora”, declarou, em referência ao deslocamento de forças militares e recursos para a região. Questionada se acredita que o governo Trump pode estar considerando ações semelhantes em outros países, Shaheen foi cautelosa:“Não está claro ainda”, disse. As críticas dos democratas se somam à preocupação de parte do Senado em limitar novas ações militares sem autorização do Congresso. Parlamentares já articulam uma votação para restringir futuros ataques caso não haja aval legislativo, o que pode criar um novo ponto de tensão entre o Capitólio e a Casa Branca. Reuniões se multiplicam no Capitólio A pressão sobre o governo tende a aumentar nos próximos dias. Além do briefing já realizado, o líder da maioria no Senado, John Thune, e o líder da minoria, Chuck Schumer, trabalham para agendar uma reunião com todos os senadores ainda nesta semana, segundo fontes ouvidas pela imprensa americana. Na Câmara, o presidente Donald Trump deve falar diretamente com deputados republicanos nesta terça-feira (6), durante o encontro anual do partido, no Kennedy Center, em Washington. A expectativa é que ele tente alinhar o discurso e conter fissuras internas. Republicanos apoiam captura, mas divergem sobre o futuro da Venezuela Entre os republicanos, a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, foi em grande parte celebrada. No entanto, não há consenso sobre o que fazer com a Venezuela daqui para frente, e esse é hoje o principal ponto de discórdia dentro do partido. A pergunta que domina os bastidores é direta: quem vai governar a Venezuela? Inicialmente, Trump elogiou a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que assumiu como líder interina após a captura de Maduro, e afirmou que poderia trabalhar com ela. A declaração irritou parlamentares republicanos da Flórida, tradicionalmente ligados à oposição venezuelana, que defendem abertamente María Corina Machado como principal liderança contra o chavismo. Trump, por sua vez, minimizou Machado, dizendo que ela não teria “apoio” nem “respeito” suficientes para liderar o país. Outros republicanos, como o deputado Bill Huizenga, de Michigan, e o senador Bill Cassidy, da Louisiana, defendem que os Estados Unidos reconheçam Edmundo González, apontado por vários países como o legítimo vencedor da eleição presidencial venezuelana de 2024. Desconfiança crescente em relação a Rubio e ao governo Nos bastidores, cresce também um sentimento de desconfiança em relação ao secretário de Estado, Marco Rubio, figura respeitada no Congresso e ex-senador. Segundo fontes ouvidas por veículos americanos, alguns republicanos e democratas sentem que foram mal informados ou pouco preparados para a dimensão da operação e para o cenário pós-Maduro. Embora Rubio sempre tenha sido visto como um aliado confiável no tema Venezuela, a ação militar surpreendeu parte do Congresso e começou a desgastar a relação.
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  • Europeus temem colapso da previdência; Itália vive desafio demográfico
    Jan 2 2026
    Uma pesquisa realizada na Europa e nos Estados Unidos indica que grande parte da população dos países pesquisados acredita que o sistema previdenciário tende a se tornar insustentável em breve. Na Itália, onde a crise demográfica é apontada como um dos maiores desafios futuros, a preocupação é ainda mais imediata: 61% dos entrevistados consideram o sistema de aposentadorias já insustentável. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão O levantamento, conduzido pelo instituto britânico YouGov em seis países europeus (Itália, França, Espanha, Polônia, Alemanha e Reino Unido) e nos Estados Unidos, mostra que entre 49% e 66% dos participantes acreditam que a previdência não resistirá quando a geração atual de 30 a 40 anos atingir a idade de se aposentar. Em países como Itália, França e Alemanha, essa percepção é ainda mais crítica: para 61% dos italianos, por exemplo, o problema já é realidade. O levantamento revela ainda uma grande insatisfação com o sistema em vigor. Em todos os países, ao menos 70% dos aposentados entrevistados afirmam que o valor recebido é um pouco ou muito baixo. Apesar do descontentamento, o apoio a reformas é limitado. Medidas como aumentar a idade mínima de aposentadoria, elevar impostos sobre os trabalhadores, reduzir o financiamento de serviços para idosos ou até incentivar a imigração aparecem com forte resistência. Na Itália, segundo a pesquisa, a proposta que recebe maior apoio popular é a de reduzir ou até cancelar por completo o pagamento de aposentadoria pública para pessoas de alta renda. A França precisou voltar atrás em sua reforma impopular aprovada em 2023. Itália possui a população mais envelhecida da Europa A Itália possui uma das populações mais envelhecidas do mundo e a mais envelhecida da Europa. A expectativa de vida no país é dois anos maior do que a média da União Europeia e continua aumentando — um fator positivo. Atualmente, os italianos vivem, em média, até os 83 anos. Segundo especialistas, esse resultado reflete uma boa qualidade de vida, com acesso a um sistema de saúde público e a pensões relativamente generosas. O problema, no entanto, está na base da pirâmide etária. A natalidade cai ano após ano e, em 2024, o número de bebês nascidos foi o menor já registrado no país. Atualmente, a taxa de fecundidade é de 1,18 filho por mulher, abaixo do necessário para manter a população ao menos estável. Para isso, seriam necessários dois filhos. Nem mesmo a imigração tem sido suficiente para compensar esse déficit populacional. Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat) mostram que apenas 21% das pessoas entre 18 e 49 anos pretendem ter um filho nos próximos três anos. Jovens italianos enfrentam dificuldades estruturais para entrar no mercado de trabalho, além de salários estagnados há décadas. Este cenário impacta diretamente a decisão de ter filhos e tem provocado uma expressiva evasão de jovens. Perda de população jovem Um relatório divulgado nesta semana pelo Conselho Nacional da Economia e do Trabalho (CNEL) revelou que, entre 2011 e 2024, 630 mil pessoas entre 18 e 34 anos deixaram a Itália, com destino a países como Bélgica, França e Alemanha. Mesmo considerando o número de imigrantes que chegaram ao país no período, o saldo ainda é negativo, com uma perda de 441 mil pessoas. Diante desse quadro, enfrentar o desequilíbrio da pirâmide etária vai além de estimular nascimentos. Envolve também criar e melhorar as condições de vida da população jovem. O envelhecimento demográfico, com muitos aposentados e poucos trabalhadores na ativa, impacta diretamente a arrecadação necessária para pagar os benefícios. Atualmente, a idade mínima para se aposentar na Itália é de 67 anos. Segundo dados do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), o país tem cerca de 16 milhões de aposentados e o valor médio das pensões é de € 1.861 por mês (cerca de R$ 12 mil), em valores brutos. Desafios pressionam governo Após semanas de intensos debates, o Parlamento italiano aprovou na terça-feira (30) a lei orçamentária para 2026. No tema das aposentadorias, a principal mudança envolve a idade mínima. Pela legislação italiana, em 2027 a idade mínima para aposentadoria deveria subir automaticamente três meses, passando para 67 anos e três meses. Esse aumento, no entanto, foi suavizado: em 2027, a idade sobe apenas um mês, e os dois meses restantes ficam para 2028. A lei orçamentária também prevê um aumento de € 20 mensais (cerca de R$ 129) para as aposentadorias de pessoas em situação de vulnerabilidade. Apesar de reconhecer o problema futuro, o governo enfrenta forte pressão popular para evitar mudanças que tornem as regras ainda mais duras. Já a questão demográfica é tratada como prioridade. A primeira-ministra Giorgia Meloni já afirmou considerar o tema central para o futuro do país. Entre ...
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