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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa.

France Médias Monde
Política y Gobierno
Episodios
  • Entre China, Venezuela e Oriente Médio: a diplomacia dispersa dos EUA
    Jan 12 2026
    É possível olhar hoje para a política externa dos Estados Unidos como um grande exercício de “zapping” geopolítico. Em tese, há uma narrativa clara: defender a democracia, conter rivais estratégicos, proteger cadeias de suprimentos e devolver empregos à classe média americana. Thiago de Aragão, analista político Na prática, porém, Washington tenta pivotar ao mesmo tempo para o hemisfério ocidental, para o Indo‑Pacífico e para dentro de casa, com uma agenda econômica “America First” que se mistura cada vez mais com diplomacia e segurança. O resultado é um excesso de frentes abertas e uma hierarquia de prioridades que muda ao sabor do noticiário, deixando aliados, adversários e até partes da própria administração sem saber exatamente qual é o eixo central da estratégia. A América Latina, e em particular a Venezuela, é um bom exemplo dessa confusão. De um lado, a retórica de dar mais atenção ao “quintal” americano, associando migração, narcotráfico e a presença de Rússia e China na região a temas de segurança nacional. De outro, a resposta prática oscila entre sanções, ameaças militares e gestos de aproximação, sem uma visão clara de qual seria o objetivo final: mudança de regime, negociação gradual ou simples contenção simbólica. Quando cada crise é apresentada como um teste histórico de credibilidade, mas a atenção de Washington rapidamente se desloca para o próximo dossiê urgente, a sensação é de uma política hemisférica mais reativa do que estratégica. Algo semelhante ocorre com a combinação de tarifas, guerra tecnológica e contenção militar em relação à China, ao mesmo tempo em que a Rússia continua tratada como ameaça imediata na Europa. O discurso oficial coloca Pequim como principal competidor sistêmico, justificando controles de exportação, tarifas e reconfiguração de cadeias industriais. Moscou permanece como foco de dissuasão militar clássica e, no entanto, há também a promessa de “encerrar guerras eternas” e reduzir o peso das aventuras externas no orçamento americano. Na prática, o país vive uma espécie de hiperativismo seletivo: não quer novas grandes intervenções no estilo Iraque, mas amplia presença militar, sanções e disputas comerciais num arco que vai do Báltico ao Mar da China Meridional. No Oriente Médio, o contraste entre discurso e realidade é ainda mais visível. A Casa Branca se apresenta como guardiã de uma ordem mais estável e menos militarizada, mas multiplica operações pontuais, ataques cirúrgicos, mediações improvisadas e promessas de redesenhar a arquitetura de segurança regional sem aprofundar o debate interno sobre o custo político e financeiro disso. Para o público americano, esta é uma “saída” da região; para quem observa de fora, soa como uma permanência em modo mais difuso e menos assumido, em que Washington quer continuar indispensável, mas sem admitir o grau de envolvimento que isso exige. Até frentes aparentemente periféricas, como a atenção renovada ao Ártico ou episódios como o interesse em comprar (ou até mesmo invadir) a Groenlândia, ajudam a compor a imagem de uma superpotência que transforma qualquer espaço geográfico potencialmente relevante em tema de segurança. O problema não é que esses temas sejam irrelevantes, mas que todos são apresentados como vitais. Quando tudo é prioridade estratégica, nada parece realmente prioritário. Do ponto de vista burocrático, isso cria listas infindáveis de “teatros críticos”; do ponto de vista político, gera mensagens contraditórias: um dia o foco é conter a China, no seguinte é punir a Europa com tarifas, depois é sinalizar força contra o Irã, logo em seguida é prometer mais atenção à fronteira com o México e à instabilidade na Venezuela. Para aliados europeus, especialmente em Paris e Bruxelas, a experiência recente com Washington é a de um parceiro não tão indispensável e, ao mesmo tempo, cada vez mais imprevisível. O mesmo governo que pede coordenação apertada contra a China e Rússia ameaça com invasão contra um território europeu, medidas comerciais unilaterais, critica níveis de gastos em defesa e muda de tom conforme o calendário eleitoral interno. Esse vaivém não significa ausência total de lógica: há um fio condutor, que é a tentativa de recompor a primazia americana num mundo mais competitivo, usando simultaneamente instrumentos militares, econômicos e tecnológicos. Mas esse fio é fino e nem sempre visível para quem está do outro lado do Atlântico ou no Sul Global, mais exposto à impressão de improviso permanente. Daí a sensação de que a política externa americana, sob a administração atual, vive uma espécie de fadiga de liderança: ainda dispõe de recursos, bases, alianças e poder financeiro para agir em múltiplos tabuleiros, mas encontra cada vez mais dificuldade em explicar por que está em tantos lugares ...
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  • Análise: Quem concedeu aos Estados Unidos o direito de agir como polícia do mundo?
    Jan 5 2026
    Os ataques americanos à Venezuela, culminando na captura do controverso presidente Nicolás Maduro, são um atentado contra o direito internacional. Mas o que mais surpreende é o silêncio cúmplice dos demais países, acuados num mundo em que vale a lei do mais forte. Thomás Zicman de Barros, analista político Na madrugada de sábado (3), Caracas e outras cidades venezuelanas foram despertadas por explosões. Eram bombardeios americanos, que culminaram na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, levados a Nova York para serem julgados como criminosos comuns. Trata-se de uma violação explícita do direito internacional, uma ingerência inaceitável de uma potência estrangeira sobre a soberania venezuelana, por mais que se possam fazer críticas severas ao governo chavista. O que mais impressiona, porém, é a forma como essa violação passou praticamente incólume. Por cálculo ou por medo, as chancelarias do mundo evitaram contestar diretamente as ações de Washington, abrindo um precedente perigoso. A operação para capturar Maduro se inscreve na Estratégia de Segurança Nacional divulgada por Washington em dezembro passado. Trata-se de uma releitura da bicentenária Doutrina Monroe, baseada em uma visão de mundo organizada em esferas de influência. A América Latina reaparece como quintal dos Estados Unidos, um espaço vital onde governos hostis devem ser removidos e onde potências consideradas externas, como Rússia e China, devem ser mantidas à distância. A Venezuela tornou-se o exemplo mais explícito dessa doutrina aplicada sem disfarces. A ausência de disfarces fica clara nas justificativas oficiais. A defesa dos direitos humanos e da democracia, frequentemente mobilizada como pretexto para intervenções americanas, simplesmente não apareceu no discurso de Donald Trump. Ele não pronunciou a palavra “democracia” uma única vez na coletiva de imprensa após a operação. Nada surpreendente, vindo de um presidente que demonstra reiterado desprezo pela democracia no plano doméstico. Segundo a Casa Branca, a captura de Maduro teria como motivação suas ligações com o narcotráfico. A comparação imediata é com Manuel Noriega, presidente do Panamá capturado e levado aos Estados Unidos no fim dos anos 1980. Mesmo esse verniz, no entanto, descasca rapidamente. Não apenas porque, há poucas semanas, Trump perdoou um ex-presidente hondurenho amplamente documentado como colaborador de cartéis, mas também porque, na mesma coletiva em que ignorou a palavra democracia, falou longamente sobre petróleo. Disse, sem rodeios, que os Estados Unidos pretendem explorar as reservas venezuelanas. Condenar a ingerência americana não implica minimizar a situação interna da Venezuela. Maduro é um líder amplamente contestado, no poder após eleições questionadas, sustentado por uma base social hoje minoritária e por um pacto profundo com as Forças Armadas, que controlam setores estratégicos da economia. A crise política e social do país é real. Ainda assim, há algo menos legítimo do que qualquer governo chavista: uma intervenção militar estrangeira dessa natureza. Bombardear um país e sequestrar sua elite dirigente, por pior que ela seja, é a suspensão aberta do direito internacional e da autodeterminação dos povos. A pergunta que se impõe é simples. Quem concedeu aos Estados Unidos o direito de agir como polícia do mundo? Quem autorizou ataques militares sem aval de fóruns multilaterais? E quem atribuiu a Nova York uma jurisdição universal de fato, funcionando como um tribunal da Haia privado, justamente para um país que se recusa a reconhecer as cortes internacionais competentes? Tão grave quanto a ação americana foi a reação da comunidade internacional. O governo brasileiro condenou a operação, mas a nota oficial do presidente Lula evita cuidadosamente mencionar os Estados Unidos. Os bombardeios e o sequestro de Maduro parecem ter sido obra de um agente indeterminado. Frases na voz passiva, sem sujeito. O cálculo é compreensível. Lula sabe que deteriorar relações com Washington pode abrir espaço para novas ingerências em pleno ano eleitoral. Mais constrangedora ainda foi a postura europeia. O presidente da França, Emmanuel Macron, chefe de Estado de um país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, abandonou uma tradição diplomática que remonta a De Gaulle. Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque com pretextos farsescos para derrubar Saddam Hussein, o então presidente francês Jacques Chirac se opôs frontalmente e denunciou a farsa. Desta vez, Macron limitou-se a avalizar a ação de Trump. Nenhuma palavra sobre a violação do direito internacional. Apenas a celebração da queda de Maduro e a vaga promessa de uma democracia futura, garantida por um presidente americano que sequer pronuncia essa palavra. Macron parece não perceber o precedente que legitima. Se Washington pode agir impunemente em seu ...
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  • Pacote tarifário nos EUA funciona como imposto oculto e pressiona preços e salários
    Dec 29 2025
    As tarifas prometem punir países “injustos”, mas quem paga é o consumidor americano. O custo se dilui nos preços, pesa mais sobre os mais pobres e mantém a sensação de vida cara. Thiago de Aragão, analista político No contexto da economia americana de 2025, o novo pacote tarifário funciona, na prática, como um imposto invisível sobre o consumo. Ele é apresentado ao público como uma cobrança sobre países “injustos” ou empresas estrangeiras, mas a mecânica é bem mais simples e menos glamourosa: tarifas entram na estrutura de custos das importações e, direta ou indiretamente, acabam embutidas no preço que o consumidor paga na loja ou no comércio eletrônico. Em vez de aparecer numa linha separada, como imposto de renda ou imposto sobre vendas, esse custo se dilui na etiqueta, o que torna politicamente mais fácil aumentá-lo e muito mais difícil para o eleitor perceber quanto está desembolsando. Do ponto de vista da inflação, o impacto não é explosivo, mas é relevante. As estimativas disponíveis convergem para um efeito de alguns décimos de ponto na inflação anual e, mais importante, para um nível de preços permanentemente mais alto do que num cenário sem tarifas. A inflação pode até desacelerar depois que o choque inicial se esgota e o banco central reage com juros, mas os preços não voltam para trás; o que muda é apenas a velocidade com que continuam subindo. Para quem acompanha o debate de longe, isso pode parecer detalhe técnico; para quem vive de salário, significa algo bem concreto: o aumento de preços acumula ao longo do tempo, enquanto o salário real patina. Esse efeito se concentra sobretudo em bens, como eletroeletrônicos, vestuário, parte dos alimentos processados e itens domésticos em geral, justamente porque são segmentos mais expostos a importações ou a insumos importados. Empresas com poder de mercado repassam boa parte da tarifa ao consumidor; as menores, com menos margem, ficam entre repassar e perder volume, ou segurar preço e sacrificar lucro. Em ambos os casos, o custo está em algum lugar da cadeia, e quase nunca é absorvido por países estrangeiros, como sugere a retórica política. Trata-se de uma combinação de preços mais altos para famílias e compressão de margens para certos negócios domésticos. Peso recai mais sobre famílias de baixa renda A dimensão distributiva é talvez a mais incômoda. Famílias de baixa renda gastam proporcionalmente muito mais em bens essenciais como comida, roupas, transporte básico e utilidades domésticas do que em serviços e lazer sofisticado. Quando tarifas encarecem exatamente esses itens, o resultado é regressivo: quem está na base da pirâmide entrega uma fatia maior da renda para o mesmo carrinho de compras, enquanto quem está no topo tem mais capacidade de absorver o aumento ou substituí-lo por alternativas. Na prática, o país está trocando um sistema tributário minimamente progressivo por um imposto indireto que pesa mais sobre quem tem menos, mas sem assumir isso de forma transparente. Há ainda o efeito sobre a sensação geral de bem-estar econômico. Mesmo que o impacto das tarifas na inflação agregada pareça moderado nos modelos, ele se soma a outros choques, como energia, habitação e crédito caro, num ambiente em que o crescimento do produto interno bruto é ligeiramente mais baixo do que poderia ser. A combinação de crescimento mediado, produtividade fraca e preços persistentemente mais altos gera o que muitos americanos descrevem como uma espécie de estagnação com carestia: não é uma crise aguda, mas um incômodo constante, a sensação de que tudo está um pouco mais caro e a vida um pouco mais apertada. Paradoxo político Esse quadro reforça o paradoxo político do “America First”. A narrativa oficial promete proteger o trabalhador americano, resgatar empregos industriais e fazer o resto do mundo pagar o preço dessa virada nacionalista. A realidade empiricamente observável, pelo menos até aqui, é menos heroica: alguns ganhos pontuais de receita fiscal, impactos limitados sobre retorno de fábricas ao território americano e uma conta difusa que recai, em grande medida, sobre o custo de vida do próprio eleitorado doméstico. Tarifas podem, sim, ter papel tático em disputas geopolíticas ou em setores estratégicos específicos; o problema é transformá-las em política econômica de primeira linha, quase permanente, sem um plano articulado de competitividade, inovação e qualificação que vá além da retórica. A questão que sobra, portanto, não é apenas se as tarifas funcionam em termos de relações comerciais, mas se a sociedade está confortável com o trade-off embutido: menos comércio e menos eficiência em troca de uma sensação de proteção, ao custo de salários reais comprimidos e de um imposto disfarçado nas prateleiras. Em última instância, o eleitor que apoia aumentos tarifários em nome de soberania ...
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